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domingo, 19 de abril de 2020

Pirataria Não é de Deus - Sobre Filmes e PDFs Espíritas.





Pirataria Não é de Deus. Sobre Filmes e PDFs Espíritas.     
Qual deve ser a atitude do Espírita diante das violações dos direitos autorais. 
por Jaime Ribeiro

Se eu fosse Asclépios, o sublime visitante dos círculos mais altos da vida do nosso planeta, que ficou conhecido por meio do livro Obreiros  da Vida Eterna de André Luiz e psicografia do médium Chico Xavier, eu retiraria uma folha do meu pergaminho e com apenas poucas linhas terminaria este texto citando o versículo doze do capítulo do Evangelho de Mateus: "Assim, em tudo, façam aos outros o que vocês querem que eles lhes façam; pois esta é a Lei e os Profetas".
Certamente as pessoas entenderiam imediatamente o que tenho para dizer.

Contudo, sou apenas mais um habitante da crosta terrestre, na luta pela evolução e vou ter que me estender um pouco mais que Asclépios.

Pirataria é crime. Não existe meio termo ou relativização desse tipo de delito.
Enviar cópias de PDFs de livros, espalhar por aí vídeos com direitos autorais reservados ou comprar cópias não autorizadas de CDs ou DVDs é desonesto. É trapacear, em um só golpe, quem acreditou e investiu dinheiro em um sonho, quem dedicou tempo e trabalho para escrever ou filmar uma obra e também ser desonesto com o sistema de impostos do governo. Significa um pouco pior do que “não dar a César o que é de César”, é jogar contra toda uma cadeia de pessoas e organizações.

Violar os direitos autorais não é errado apenas porque a lei humana não permite, isso todos já sabem, mas também porque viola o que Kardec chamou no capítulo XI do Evangelho Segundo o Espiritismo de "a expressão mais completa da caridade, porque resume todos os deveres do homem para com o próximo”. Ele se referiu ao mandamento “amar ao próximo como a si mesmo”.

Independente de ser Espírita ou não, atentar contra o direito do próximo é antiético, não importa se isso é feito com a desculpa de ajudar quem quer que seja. Ainda mais que quando se trata de uma obra espírita, na maioria das vezes, boa parte da receita é destinada a manter atividades humanitárias de várias instituições.

Algumas pessoas tentam justificar a pirataria e sua difusão com questões como: "é a mensagem do Espiritismo e de Jesus, enviando de graça estou divulgando a Doutrina", ou "e as pessoas que não podem comprar, como vão ter acesso ao nosso conteúdo?" ou por último, tentam defender que todo conteúdo espírita deveria ser distribuído de graça.
Pessoal, nós só podemos doar o que nos pertence. Mesmo aquilo que circula na internet ou está com o link no site de alguma Casa Espírita pode não ter licença para ser compartilhado.

Até as obras de Chico Xavier e de Divaldo Franco não escaparam de ter PDFs piratas dos seus livros circulando sem qualquer pudor em sites e grupos das casas espíritas. Isso é ainda mais surpreendente porque todos sabem que os direitos autorais dessas obras foram doadas para apoiar a manutenção da Federação Espírita Brasileira e da Mansão do Caminho. Eles não liberaram as obras para domínio público.

Sabemos que as pessoas que compartilham esses conteúdos fazem com boa vontade e a Lei de Deus sempre leva em conta a intenção, mas é nosso dever como espíritas saber interpretar o texto impecável de Allan Kardec sobre o que é ser um Homem de Bem: "o verdadeiro homem de bem é o que cumpre a lei de justiça, de amor e de caridade, na sua maior pureza. Se ele interroga a consciência sobre seus próprios atos, a si mesmo perguntará se violou essa lei, se não praticou o mal, se fez todo o bem que podia, se desprezou voluntariamente alguma ocasião de ser útil, se ninguém tem qualquer queixa dele; enfim, se fez a outrem tudo o que desejara lhe fizessem”.

Algumas vezes, recebemos o conteúdo ilegal, como aconteceu comigo recentemente com o filme "Divaldo, o Mensageiro da Paz", pelas mãos de amigos queridos e não paramos para pensar que aquilo estava ferindo o direito de alguém.

Grande parte das pessoas se acostumaram tanto com o jeitinho brasileiro que qualquer chance de economizar, ou de favorecer um amigo para que não gaste dinheiro, as isenta de refletir e lembrar que pessoas que não conhecemos podem estar sendo prejudicadas.

Amar e respeitar o próximo e ter empatia, não serve apenas para aqueles que podemos ver e nos são familiares. Essa lei deve ser aplicada para toda a humanidade.

É importante lembrar que precisamos ser melhores do que quem avança sobre as cargas dos caminhões que tombam e furtam o produto que está no chão. De alguma forma aquelas pessoas tentam se convencer de que um veículo de rodas para o ar é símbolo de permissão para cometer um crime.

A internet também não é um carro tombado.
Existem incontáveis conteúdos gratuitos sendo produzidos e publicados todos os dias nas diversas plataformas digitais que podem e devem ser compartilhados sem custo.
É nossa obrigação respeitar, prestigiar e ser grato por encontrarmos pessoas dispostas a investir na divulgação da Doutrina Espírita.

Gratidão.
Agora, acredito que encontrei a palavra que o nosso irmão dos ciclos mais altos nos falaria após retirar uma outra folha de seu pergaminho alvinitente e ler para nós o versículo dezoito do capítulo cinco da carta de Paulo para os Tessalonicenses:
"Em tudo dai graças, porque esta é a vontade de Deus em Cristo Jesus para convosco".

A única forma de sermos gratos a quem dedicou trabalho, tempo e dinheiro em produzir uma obra para a divulgação da Doutrina Espírita é honrando os seus direitos e sendo honestos com eles mesmos em suas ausências.

Por isso, peço perdão por ter abordado esse assunto de uma forma menos delicada do que o iluminado Asclépios faria, mas acredito que é a única maneira de entendermos de uma vez por todas a gravidade que envolve a pirataria e porque ela não é de Deus.



Jaime Ribeiro é palestrante e escritor espírita. Formado em Engenheira Química e  especializado em gestão de negócios e marketing pela FGV Rio. Atualmente é executivo da área de educação  e estudioso do impacto da tecnologia nas habilidades humanas. Seus estudos e pesquisas giram em torno de questões humanas importantes como: empatia, diminuição da desvantagem social e competências do século XXI.





quarta-feira, 25 de março de 2020

O Movimento Espírita e a Cultura de Cancelamento | Por Jaime Ribeiro


O Movimento Espírita e a Cultura de Cancelamento

Como estamos vivendo o Cristo nas redes sociais
e nas nossas instituições?

Você já foi cancelado? Muito provavelmente sim. Em especial se for um trabalhador atuante no Movimento Espírita, um palestrante ou escritor.

Cancelar é a palavra nova que se usa para dizer que a pessoa não merece atenção, não é digna de voz ou visibilidade e merece ser ignorada por todos. Significa quase uma sentença de morte declarada pelo tribunal das bolhas sociais que tomou uma proporção assustadora por causa da internet. É o homem tentando mais uma vez se passar por Deus e julgar aquilo que lhe desagrada. Em uma palavra: é não ser cristão.

Na internet virou mania cancelar alguém por ter falado alguma coisa ou até mesmo por ter aparecido ao lado de alguém que os julgadores não gostam.

Muito antes da invenção das redes sociais, nós espíritas já cancelávamos alguns dos nossos irmãos. Palestrantes cancelados porque citaram um determinado autor, trabalhadores cancelados porque ousaram sugerir mudanças em processos da Casa Espírita, outros cancelados porque já não conseguiam mais abraçar o trabalho voluntário de todos os dias da semana e também aqueles que escreveram livros e foram cancelados porque "os julgadores" entenderam que ele não podia escrever sobre o que quisesse, mas sim pelo que era exigido pelos canceladores.

Já vimos grandes palestrantes cancelados porque um dirigente ouviu fake news sobre ele e decidiu que deveria conspirar para que não participasse de grandes eventos. Que bom que o tempo se encarregou de mostrar a verdade, mas nem todos tem essa oportunidade.

Fiquei sabendo que o trabalhador de um Centro Espírita foi cancelado porque sugeriu ao presidente que a descarga do banheiro deveria ser consertada.

Recentemente, vimos julgadores das redes sociais tentando cancelar nosso querido Divaldo Franco, por causa de opiniões que emitiu sobre determinados acontecimentos do nosso país. Já teve até gente que aproveitou para falar sobre um comentário que ele fez usando metáforas como anjos e o emprego da palavra temor para tentar desqualificar o conteúdo. Como se ele precisasse de uma aula de princípios básicos do Espiritismo para entender o que Allan Kardec escreveu no livro O Céu e o Inferno. Em tempo, pelo que conhecemos de Divaldo Pereira Franco, se alguém, fosse apontar esses "erros" para ele, a resposta seria de "muito obrigado pela gentileza em me falar" seguida de um sorriso. Diferente do que uns poucos falam, ele sempre rejeitou a posição de estrela de qualquer coisa. Felizmente, os canceladores podem até tentar destruir a reputação de um homem de moral ilibada, mas a sua obra é tão grandiosa que seriam preciso 500 anos de ataque de haters* se manifestando na internet para que algum eco fosse capaz de abalar um tijolinho de sua obra. Cada vez que eu lia algum deles falar mal da opinião do Divaldo, mais eu lembrava de sua obra e do que ele fez, incansavelmente, por todos nós e pelo Espiritismo. Meu agradecimento especial para esses irmãos, que por meio da tentativa de cancelar um ser humano tão especial e necessário ao nosso tempo, nos ajudou a lembrar o que ele significa para todos nós. Deu até saudade. Já tem mais de seis meses que não tenho a alegria de estar com ele.

Esse tipo de situações não acontece só no campo do pensamento e ideias. Nas instituições de caridade também estão cancelando pessoas.

Uma jovem executiva que é voluntária em uma ONG foi cancelada porque sugeriu aos colegas um projeto básico de gestão. Seus pares não acreditavam que os controles eram necessários e falaram que a gestão "profissional" dos recursos seria um risco à essência do sentimento de amor e caridade que uniam as pessoas envolvidas. Ninguém mais a procurou ou respondeu às suas tentativas de contato para o trabalho. Em silêncio, ela continuou servindo, mas ainda sente o gosto amargo que fica em quem está com o coração cheio de amor para servir e é cancelado por um sistema que não permite novas ideias, e não está preparado para acolher pessoas capazes de propor outros caminhos.

Sugerir melhorias e novas práticas tem sido um caminho certo para o cancelamento. Por essa razão, muitas pessoas vão embora das instituições. Contudo, infelizmente, a dor do desapontamento segue com elas.

Por toda parte, temos ouvido relatos de pessoas que pagaram o preço do cancelamento nas Casas Espíritas pelos mais variados motivos. Surpreendentemente, a maioria deles estão relacionados a intolerância religiosa, resistência ao novo nas instituições e inveja.

Na intolerância religiosa interna, julgamos o diferente como inimigo e passamos a rotular a todos. Espíritas deixam de ser apenas irmãos e recebem adjetivos complementares de "roustainguistas", "ramatizistas", ignorantes e outras coisas que agora nem me vem à mente.

A resistência a inovação é o movimento que usa a tradição erroneamente para transformar a Casa Espírita em uma instituição deslocada do nosso tempo, apegada ao passado e incapaz de acompanhar as possibilidades do século XXI. Por causa desse movimento, que é completamente afastado da forma como Kardec se apoiava nos recursos de seu tempo, o uso sério da tecnologia para melhorar a metodologia pedagógica e a difusão da obra Espírita, a melhoria dos ambientes físicos para que os ambientes sejam mais agradáveis e confortáveis, são necessidades básicas que ainda não alcançaram a maioria das instituições. Continuamos sendo uma Doutrina do século XIX, praticadas em casas do século XX e vivida por pessoas do século XXI. Algum outro palpite do motivo pelo qual os jovens não se encaixam?

Claro que a energia da casa é mais importante que tudo. Contudo, se a modernidade já ensinou a cafeterias, universidades, escolas e museus ao redor do mundo, sobre a importância da experiência das pessoas quando estão dentro de um ambiente, por que não podemos fazer o mesmo para proporcionar o bem-estar de quem está no Centro Espírita?

A inveja é mais simples de explicar. Ela acontece quando as pessoas admiram o que você faz e se sentem incomodadas com isso. Por causa desse incomodo, pessoas que brilham podem ser canceladas.

Não precisamos de sermões nem de citações do Evangelho do Cristo para sabermos que nada dito acima condiz com o modelo de comportamento que Jesus nos deixou como legado.

A sociedade que cancela é uma sociedade que julga e está doente.

O Espírita que cancela um irmão deveria lembrar que faz parte de um movimento de resgate da mensagem do Cristo.

Como Emmanuel nos falou, os espíritos vieram em massa para nos apoiar na tarefa de propagação do Evangelho redivivo.

É sério que alguém acha que o pão que doou é mais urgente para o Cristianismo do que a união dos Espíritas e a empatia com quem é diferente de nós?

Particularmente eu não quero saber se você lê um livro que não gosto, se você tem uma opinião política diferente da minha ou se você não leu a codificação de Kardec toda. Existe muita gente capaz de citar de cabeça cada pergunta de O Livro dos Espíritos, mas ataca instituições e pessoas em nome da verdade. Isso me lembra bastante os enganos da Igreja do passado. Talvez sejamos os mesmos inquisidores reencarnados que estamos repetindo nossos erros. A diferença é que naquela época a Igreja cancelava monarquias e pensadores, tentando sumir com eles da história, hoje estamos usando recursos menos poderosos como a fofoca e cancelamento nas redes sociais e nos convites para os eventos.

Espíritas: amai-vos e instrui-vos. Instruir não é ler apenas as obras básicas, é ser capaz de identificar movimentos modernos que nos afastam dos nossos valores e princípios.

Espírita que cancela pode se considerar estudioso, pode ser palestrante, pode ter milhões de seguidores, mas está sucumbindo em executar a missão de amor a qual se propõe.

O Espiritismo não precisa de advogados, ele precisa de agentes de transformação do mundo.

Deus que nos perdoe em continuar causando dor ao nosso próximo.

Se você não concordou comigo, por favor não me cancele. Tem gente que diz que não sente, mas quando chega a noite e eu deito na cama para dormir, eu sinto a dor da intolerância tocar o meu coração.

Jaime Ribeiro



haters*  São pessoas que sempre irão criticar e tentar desvalorizar o trabalho ou a vida do indivíduo que ele “odeia”, mesmo que não tenha reais motivos para isso.








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